Treine movimentos e não músculos

Hoje eu quero começar o texto com algumas perguntas provocativas: o que é movimento funcional pra você? Quando você vai à academia, você geralmente foca no músculo ou no movimento? O que é funcional pra você seria funcional para outra pessoa?

O movimento humano ocorre devido a uma ação conjunta entre diversos grupos musculares, com transferência de forças intra e intersegmentos. Ao chutar uma bola, um jogador experiente abre os braços, rotaciona o tronco e chuta – aproveitando a energia que todos os segmentos oferecem para garantir a potência máxima do chute. Ao correr, nós movimentamos os braços e tronco. Esportes tipicamente de membros inferiores (como corrida ou futebol) não acontecem somente nos membros inferiores. Assim como esportes tipicamente de membros superiores (vôlei, handball) não acontecem somente com movimentos dos membros superiores. Desta forma, o método clássico de treinamento de força, o qual treina grupos musculares isolados não é o mais eficiente.

Um dos 5 princípios do treinamento físico é a especificidade muscular: o músculo só é forte na posição em que o trabalhamos. Não adianta fortalecer o bíceps flexionando e estendendo o cotovelo ao lado do corpo se no dia a dia o indivíduo precisa da força de membros superiores com as mãos à cima da cabeça. Não adianta fortalecer glúteo sentado na cadeira abdutora ou posicionado em 4 apoios se no dia a dia o indivíduo precisa da força de glúteo estabilizando os membros inferiores com uma perna apoiada no chão e a outra em balanço (como na descida de degrau ou corrida). Quanto mais específico é o treinamento de força muscular, mais nós conseguimos transferir os ganhos destes exercícios para o desempenho nas atividades de vida diária (como por exemplo, na preparação para a prática de uma modalidade esportiva). Portanto, treinar o movimento (atividade) faz mais sentido do que treinar músculos.

Claro que há vantagens e desvantagens nos dois métodos de treinamento. O treinamento funcional é mais específico para a atividade executada pelo indivíduo, sua execução gera um alto gasto calórico e depende de poucos materiais; entretanto tem um potencial lesivo maior já que depende uma técnica correta de execução dos exercícios.  O treinamento da musculatura isolada é uma ótima ferramenta para hipertrofia muscular (principalmente para fins estéticos) e possui menor risco lesivo comparado ao treinamento funcional; entretanto é uma atividade mais monótona e depende de aparelhos e equipamentos.

O importante é trabalhar da melhor forma dentro de um programa de treinamento elaborado por um profissional capacitado, respeitando as restrições e individualidades de cada sujeito.

Por Ana Luiza Rodrigues

Referências

FONSECA, S. T. et al. Integration of stresses and their relationship to the kinetic chain. Scientific foundations and principles of practice in musculoskeletal rehabilitation. St Louis: Saunders Elsevier, p. 476-86, 2007.

STIEN, Nicolay et al. Training specificity performing single-joint vs. multi-joint resistance exercises among physically active females: A randomized controlled trial. Plos one, v. 15, n. 5, p. e0233540, 2020.

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